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Artigo de opinião
24 de abril, 2026

8 motivos para defender a privatização dos Correios

8 motivos para defender a privatização dos Correios
Foto: Ranking dos Políticos

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por Luan Sperandio

Os Correios anunciaram nesta semana que fecharam 2025 com prejuízo de R$ 8,5 bilhões. O resultado mais do que triplicou em relação ao saldo negativo de R$ 2,6 bilhões registrado em 2024. Assim, acumula-se o 14º trimestre consecutivo de prejuízo. A estatal apresenta resultados negativos desde o 4º trimestre de 2022.

Além disso, a receita bruta caiu 11,3% no ano, somando R$ 17,3 bilhões. O patrimônio líquido, por sua vez, encerrou o período em R$ 13,1 bilhões negativos. Para sobreviver, a empresa contratou às pressas um empréstimo de R$ 12 bilhões com aval do Tesouro. A operação foi concluída no fim de dezembro.

O cenário se soma ao histórico recente de greves. Em dezembro de 2025, por exemplo, a Federação Nacional dos Trabalhadores em Empresas dos Correios e Similares (FENTECT) deflagrou nova paralisação. A categoria rejeitou proposta mediada pelo Tribunal Superior do Trabalho. Foi mais uma na longa sequência de greves dos últimos anos.

Brasil supera economias desenvolvidas em estatais

Para além disso, a estatal é mais uma entre as 44 empresas estatais federais sob controle direto da União. O dado consta no Relatório Agregado das Empresas Estatais Federais 2025 do Ministério da Gestão e Inovação em Serviços Públicos. Somando as estatais estaduais e municipais, o Brasil segue como um dos campeões mundiais em número de empresas públicas.

Inclusive, o país tem mais estatais do que a soma de diversas nações que integram a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Trata-se de um grupo composto por economias desenvolvidas. As estatais federais contam com um total de cerca de 440 mil empregados. Os Correios, por sua vez, figuram como uma das maiores empregadoras dentre elas.

Como é inerente às estatais, que operam sem se sujeitar ao sistema de lucros e prejuízos, falta um sistema de incentivos adequado. Ou seja, há diversas ineficiências, ingerências políticas e muita resistência às mudanças de gestão. Nesse sentido, destaco 8 motivos pelos quais é necessário privatizar a estatal.

1. Escândalos de corrupção nos Correios

Primeiramente, os Correios protagonizaram diversos escândalos de corrupção nas últimas duas décadas. O Escândalo do Mensalão em 2005, por exemplo, foi descoberto em decorrência da estatal. A origem foi um vídeo que mostrava um ex-funcionário negociando propina com um empresário. Inclusive, o ex-funcionário mencionava o aval do então deputado federal Roberto Jefferson.

Assim, iniciou-se um processo de investigação. O caso resultou na criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar as denúncias. Depois, descobriram que se tratava de um esquema de compra de apoio parlamentar por parte do Partido dos Trabalhadores.

Além disso, a Operação Mala Direta, deflagrada em 2016, verificou uma fraude de R$ 647 milhões. O esquema envolvia envio de mercadorias de forma clandestina. Ou seja, a estrutura dos Correios era utilizada para desviar valores para outras empresas prestadoras de serviço semelhante.

Em agosto de 2020, a Polícia Federal fez operação contra fraudes na estatal. O esquema criminoso envolveu empresário de agências franqueadas e funcionários. Como resultado, o prejuízo chegou a R$ 94 milhões.

O rombo bilionário no Postalis

Outro escândalo marcante ocorreu no Fundo de Pensões dos Correios, o Postalis. O fundo registrou R$ 7 bilhões em prejuízos. Boa parte disso decorreu de investimentos fraudulentos e negligentes. Os aportes, ademais, eram feitos em desacordo com a própria política interna de investimentos do fundo.

A orientação dos investimentos era política e ideológica. Houve aportes em bancos liquidados e em empresas do grupo EBX, de Eike Batista. Inclusive, havia aportes em títulos públicos da Argentina e Venezuela.

Em virtude do rombo, os trabalhadores ativos da empresa passaram a ter contribuições extraordinárias na folha. Assim, eventual privatização representaria uma blindagem política adicional. O efeito seria proteger a previdência dos trabalhadores.

2. O histórico de ingerência política nos Correios

Levantamento da revista Exame de 2016 demonstrou dado alarmante. Todos os 25 cargos de direção da empresa eram ocupadas, à época, por indicados políticos. Ademais, todas as 8 vice-presidências eram ocupadas por apadrinhados do PDT, PSD, PTB e MDB. A empresa foi considerada “a mais politizada de todas as estatais”.

Além disso, foram identificados na empresa cerca de 700 cargos reservados apenas para sindicalistas. Os ocupantes exercem lobby para a manutenção da empresa no seio do Estado.

O então presidente da empresa, Guilherme Campos (PSD), admitiu um ponto importante. Para ele, para acabar com a politização da empresa seria necessária sua privatização. O governo Temer, por sua vez, cogitou a venda. Contudo, diante das dificuldades e pelo pouco tempo de mandato, acabou por não levar a ideia à frente.

Apesar disso, o governo Temer recomendou ao governo Bolsonaro a continuidade de medidas importantes. Entre elas, programas de demissão de funcionários e aceleração de parcerias com o setor privado. Ademais, recomendou a reestruturação de ativos e a alienação de participações acionárias.

Apesar do tema ter circulado durante o governo Bolsonaro, a proposta não prosperou no Congresso. Por outro lado, o atual governo Lula optou pela rota oposta. Em vez da privatização, aposta em “arranjos societários” e em plano de reestruturação fiscal. O plano prevê a demissão de 15 mil funcionários e o fechamento de 1.000 unidades de atendimento.

Lei das Estatais e o uso político da empresa

A chamada Lei das Estatais, por sua vez, evidenciou a necessidade de gestão e de perseguição do lucro. Esses processos podem ajudar na despolitização dos Correios. Afinal, foram criadas regras específicas para nomeação de diretores e membros do conselho. Soma-se a isso um rígido programa de regras de conduta.

Contudo, a legislação possui limitações de implementação. Ou seja, são necessários alguns anos para que programas de compliance, transparência e integridade tenham maior resultado.

Além disso, a situação contábil da estatal foi fragilizada por decisões políticas. As administrações petistas utilizaram a empresa para financiar o governo federal. Entre 2007 e 2013, período em que as receitas superaram as despesas nos Correios, foram repassados R$ 8 bilhões à União. Os valores foram enviados à título de antecipação de dividendos, em valores atualizados.

Com menos dinheiro em caixa, a companhia teve maiores dificuldades nos anos seguintes. Por isso, eventual privatização ajudaria a evitar que episódios assim ocorressem.

3. Corrupção dificulta o processo de privatização

Tantos escândalos de corrupção dificultam até mesmo o processo de venda da estatal. Isso porque a Lei Anticorrupção muda o cálculo dos investidores. Ou seja, eles passam a levar em consideração a possibilidade de corrupção no ativo a ser comprado.

Afinal, a pessoa jurídica adquirente será responsabilizada em caso de descobertas posteriores de esquemas de corrupção. Isso ocorre independentemente se esses esquemas tenham acontecido antes da venda do ativo.

Assim, com histórico de fraudes e ingerência política, aumenta-se a matriz de risco de qualquer compra da estatal. Ou seja, há maior probabilidade de passivo criminal, e isso é precificado no valuation. Em outras palavras, em uma eventual venda o valor tende a ser aquém do que seria possível.

4. Os prejuízos expõem a importância de privatização da estatal

O cenário deteriorou ainda mais nos últimos anos. Após breve recuperação entre 2017 e 2021, a estatal voltou a amargar prejuízos consecutivos. Inclusive, a situação piorou a partir do quarto trimestre de 2022.

Assim, a trajetória culminou no saldo negativo recorde de R$ 8,5 bilhões em 2025. Trata-se do maior rombo da série histórica desde, pelo menos, o Plano Real, de 1994. Ademais, parte relevante desse valor decorre de R$ 6,4 bilhões em despesas com precatórios e contingências judiciais. Inclusive, R$ 2,63 bilhões referem-se a dívidas herdadas de gestões anteriores.

Além disso, a empresa já havia acumulado R$ 4,4 bilhões em prejuízos entre 2012 e 2016. Vale ressaltar que parte do portfólio de serviços prestados pela estatal detém monopólio legal.

Imunidade tributária e vantagens competitivas

Ademais, a ineficiência dos Correios é evidenciada por outro fator. A empresa tem dificuldades de caixa a despeito da estatal ser isenta de obrigações tributárias. Inclusive, a isenção foi concedida por decisões do Supremo Tribunal Federal.

Ao contrário de suas concorrentes, a companhia não arca com impostos de ISS, ICMS, IPTU e IRPJ, dentre outros. Assim, os Correios são isentos de impostos em todos os seus serviços. Ou seja, a isenção vale inclusive para os serviços que não possuem relação com sua atividade-fim, como cobrança e recebimento de títulos.

Por exemplo, segundo a Vice-Presidência Jurídica dos Correios à época do julgamento, a imunidade tributária do ISS gerou economia relevante. O valor correspondeu a R$ 681 milhões de passivos de ISS. Ademais, o total geral somou R$ 15 bilhões, incluindo débitos de ICMS e de PIS/COFINS.

Por conseguinte, na prática, a empresa conta com vantagens de dois tipos. De um lado, há as do monopólio postal. De outro, há também as do segmento concorrencial, dada sua imunidade tributária. Ainda assim, os Correios operaram em prejuízo em grande parte dos últimos anos. Ou seja, sem essas vantagens competitivas, dificilmente teriam registrado lucro em diversos exercícios financeiros.

O plano de reestruturação atual

Por fim, diante do cenário atual, o plano de reestruturação anunciado em dezembro de 2025 traz medidas drásticas. Entre elas, o fechamento de mais de mil agências e a demissão de 15 mil funcionários. Inclusive, houve adesão de 3.748 empregados ao Programa de Desligamento Voluntário (PDV) apenas no primeiro ciclo.

A medida, segundo a estatal, deve proporcionar economia recorrente na folha de pagamentos. Ainda assim, a dimensão dos prejuízos acumulados torna incerta a sustentabilidade da empresa nos moldes atuais.

5. Risco de dependência do Tesouro se concretiza

Segundo relatório da Controladoria Geral da União de 2018, já havia preocupação com a situação. Afinal, o alerta era que os Correios poderiam perder a condição de independência do Tesouro. Ou seja, a estatal teria de ser financiada com dinheiro dos pagadores de impostos para se manter.

Contudo, passados oito anos, esse risco se materializou de forma ainda mais grave. Em dezembro de 2025, o Tesouro Nacional aprovou um empréstimo de até R$ 12 bilhões aos Correios. Ademais, a operação foi aprovada com aval e garantia da União.

O empréstimo bilionário com aval do Tesouro

Caso a estatal não honre as parcelas, o governo federal arcará com a conta. Em outras palavras, a responsabilidade final recai sobre o pagador de impostos. Além disso, a operação foi contratada com Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Bradesco, Itaú e Santander. Os termos incluem carência de três anos e juros de 115% do CDI.

Contudo, mesmo com essa injeção bilionária, o presidente da estatal, Emmanoel Rondon, deu declaração preocupante. Segundo ele, a empresa ainda busca mais R$ 8 bilhões para equilibrar as contas. Ademais, esses recursos podem vir de novos empréstimos ou de aportes diretos do Tesouro Nacional em 2026.

Ou seja, o que a CGU alertou como risco em 2018 hoje é realidade. Assim, os Correios passaram a depender de crédito garantido pela União para manter suas operações. Ademais, a possibilidade de aportes diretos do Tesouro volta à mesa. Sem plano fiscal, inclusive, o rombo da estatal seria de R$ 23 bilhões em 2026, segundo projeções da própria gestão.

Por que a privatização da estatal protege contra riscos políticos

Nada garante que as medidas de reestruturação serão sustentáveis e contínuas. Pelo próprio mercado em que atua a estatal, há ceticismo em relação a seu desempenho no longo prazo.

Ademais, há o risco político. A companhia pode ser vítima de administrações futuras atacadas por interesses políticos, e não técnicos. No passado, os Correios já foram sinônimo de eficiência e boa reputação. Inclusive, a situação era muito mais favorável, interna e externamente, do que se encontra no momento. Mesmo assim, a estatal foi vitimada por tudo que foi apontado no artigo.

Por isso, privatizá-la é protegê-la de interesses políticos. Assim, a medida beneficiaria não apenas os consumidores, mas os próprios empregados da companhia. Além disso, permitiria à empresa se reinventar para competir no mundo moderno. Afinal, sem privilégios tributários, ela concorreria em igualdade com outras companhias.

6. A ineficiência da estatal

Entre as justificativas comuns de opositores à quebra de monopólio postal consta um argumento específico. Para eles, algumas áreas mais afastadas e com menor demanda não despertariam interesse da iniciativa privada.

No entanto, do ponto de vista da universalização do serviço, a concessão do monopólio aos Correios pode ter resultado no exato oposto. Afinal, o monopólio restringe a universalização ao sufocar qualquer forma de concorrência.

Inclusive, o próprio presidente da estatal, Emmanoel Rondon, reconheceu o problema. Segundo ele, a regra de universalização gera um déficit estrutural estimado em R$ 4 bilhões anuais. Ademais, esse custo recai sobre toda a sociedade.

Por outro lado, Gesner Oliveira, da Fundação Getúlio Vargas, fez cálculo relevante em 2017. Segundo ele, a falta de competição dos Correios custa R$ 766 milhões por ano aos consumidores. Ou seja, trata-se do custo de oportunidade do monopólio legal, que vigora desde 1978 no Brasil. A norma, inclusive, estabelece a exclusividade no território nacional da União pelo recebimento, transporte, entrega e expedição de cartas.

Atrasos, extravios e roubos nas entregas

Ademais, os resultados práticos e a crise enfrentada pela empresa trazem questionamentos sobre seu modelo de negócios. Além das frequentes greves com pedidos de reajustes salariais, os atrasos e perdas de itens foram rotineiros por anos.

Em apenas seis anos, a quantidade de indenizações pagas pela estatal aumentou 1.054%. As causas são atrasos, extravios e roubos. Inclusive, houve prejuízo de R$ 201,7 milhões somente com perdas de encomendas em 2016.

Ademais, a cada sete minutos, em média, uma remessa é roubada ou furtada no Rio de Janeiro. Os alvos são veículos ou funcionários dos Correios. Assim, tudo isso custa muito não apenas à estatal, mas aos consumidores. Ademais, boa parte deles são empresas que dependem da companhia para entregar e/ou receber seus produtos.

Por outro lado, houve alguma melhora recente. O volume de encomendas em atraso caiu 43% em 2025 em relação a 2024, segundo a empresa. Contudo, ainda há indicadores aquém de outras empresas similares do setor. Além disso, a queda de 66% nas encomendas internacionais transportadas em 2025 expõe a fragilidade da companhia diante da concorrência acirrada no e-commerce.

7. A tendência mundial é a de quebra de monopólio

Críticas contra privatizar os Correios apontam suposta incapacidade do setor privado. Para os opositores, atuar em áreas de baixo retorno financeiro seria um problema. Contudo, essa dificuldade não impediu que dezenas de países quebrassem o monopólio. Inclusive, os casos ocorreram entre integrantes da União Postal Universal, composta por 192 países. Vários deles, ademais, possuem uma estatal de capital misto ou mercado totalmente privado.

Por exemplo, em alguns países europeus, criou-se um fundo que compensa as perdas nas regiões menos rentáveis. A solução, inclusive, foi aprovada em 2020 no Novo Marco do Saneamento Básico. Outra saída, por sua vez, seria uma abertura gradual no mercado, atraindo competição aos poucos.

Os casos de privatização em Alemanha e Portugal

Ademais, um exemplo foi o do serviço postal alemão, privatizado em 1995. Ele se reinventou por meio da prestação de outros serviços, como financeiros, parcerias e lojas de conveniência. No ano de 2002, o Deutsche Post adquiriu a DHL e hoje atua em cerca de 200 países. Por fim, o monopólio do envio de cartas de até 50g, o único que ainda perdurava, acabou em 2007.

Já a estatal do setor que havia em Portugal, a Correios, Telégrafos e Telefones (CTT), também foi privatizada em 2014.

Em suma, a intenção nesses casos foi dupla. Ou seja, buscou-se tanto a geração de caixa quanto a maximização da eficiência na prestação do serviço. Isto é, a privatização do setor buscou melhorar a qualidade dos serviços e evitar preços excessivos. Portanto, é um processo que deve começar a ser observado e perseguido no Brasil.

No Brasil, contudo, o caminho segue em direção oposta. Afinal, a atual gestão da estatal descartou publicamente a privatização. Em vez disso, passou a avaliar “arranjos societários”. Por exemplo, há a possibilidade de transformar a estatal em sociedade de economia mista.

Inclusive, o modelo é semelhante ao da Petrobras e do Banco do Brasil, em que o Estado mantém o controle acionário. Contudo, a questão é saber se um arranjo assim será suficiente. Afinal, o objetivo seria reverter um déficit estrutural bilionário sem transferir, cada vez mais, a conta para o contribuinte.

8. Privatizar os Correios não significa privatizar de qualquer jeito

A privatização não pode ser encarada como uma panaceia. Ou seja, ela não pode ser um fim em si mesmo, tampouco feita de qualquer jeito. Por exemplo, um caso negativo se deu pelo processo de venda da estatal responsável por serviços postais na Argentina. À época, ademais, o marco regulatório adotado foi equivocado. O caso dos hermanos é um exemplo perfeito do que não fazer. Afinal, o fim de um monopólio público deu lugar à criação de um monopólio privado.

Inclusive, eram os anos 1990 na Argentina. A privatização dos serviços postais, por sua vez, ocorreu concomitantemente à de diversos outros setores, como portos e ferrovias. Contudo, todos eles apresentaram problemas em virtude da criação de um ambiente regulatório fraco. Ou seja, a causa foi a inexperiência dos agentes envolvidos no processo de privatizações. Além disso, houve forte lobby de atores privados.

Assim, foram criados diversos privilégios a esses setores. Em contrapartida, isso ajudou a onerar os consumidores, em vez de protegê-los. Para piorar, a Argentina viveu crise política e econômica no início do milênio. Por isso, houve muita influência política em todos esses processos. Ademais, as intervenções governamentais ocorreram de forma atabalhoada, buscando corrigir os erros regulatórios iniciais.

A concessão ao Grupo Macri sem concorrência

Especificamente sobre a privatização dos serviços postais dos argentinos, a empresa foi vendida para o Grupo Macri. O grupo, por sua vez, pertencia à família do ex-presidente Mauricio Macri. Criou-se, assim, a Correo Argentino S.A, com uma concessão de 30 anos.

Dessa forma, foram criados os piores incentivos possíveis. Ou seja, sem concorrência, para que melhorar os serviços prestados? Ademais, havia possibilidade de aumento de preços de forma arbitrária, já que a companhia era a única a operar naquele mercado.

Por conseguinte, o resultado foi um aumento de preços sem melhoria da qualidade. Ou seja, incentivos importam, e monopólios privados tendem a ser tão ruins quanto monopólios estatais. Contudo, a diferença é que em um ambiente de cultura patrimonialista, a pressão popular é menor quando quem presta o serviço é o poder público.

Para piorar, o grupo detentor da companhia argentina nem sequer pagou as taxas referentes à concessão a partir de 1999. Assim, tudo isso criou um ambiente de justo descontentamento popular. Além disso, gerou argumentos jurídicos suficientes para o cancelamento da privatização. Por fim, a reestatização do serviço ocorreu em 2003.

Contudo, todas essas questões podem ser evitadas no processo de privatização da ECT no Brasil. Portanto, provavelmente, ninguém sério defenderia um marco regulatório por aqui semelhante ao argentino.


Luan Sperandio é analista político e diretor de operações do Ranking dos Políticos desde 2023